Que Bruna Lombardi é e sempre foi linda, todos sabem. Mas quem tem menos de 30 anos não lembra que a bela atriz também já fez sucesso como escritora de livros, oficio que parece ter sido substituído pelo de roteirista de cinema. Bruna lançou três volumes de poesia: “No ritmo dessa festa” (1976), “Gaia” (1980) e “O Perigo do Dragão” (1984). Também lançou “Diário do Grande Sertão”, o romance “Filmes Proibidos” (1994) e o roteiro do seu filme “O signo da cidade” (2008).Bruna sempre teve como temas de seus livros a mulher em busca da paixão. Seus poemas mostram devaneios, delírios, loucuras, sonhos e sempre defendem que o amor enlouquece e é o desígnio do ser-humano se entregar à esta loucura.
“Quanto mais fundo eu entro na desordem,
melhor me oriento”
(No ritmo dessa festa, pág 11)
No prefácio de “No ritmo dessa festa” Chico Buarque diz que devemos separar a poesia de Bruna do rosto de Bruna, mas nem sempre isso é tarefa fácil, Bruna expõe suas fragilidades sem titubear, mostrando assim a mulher por trás da atriz-musa, como no poema “Roupa Íntima”:
“Eu que tenho andado por aí
que tenho feito algumas coisas sem sentido
que algumas vezes não refletem o que sou
eu que tenho sido já tantas mulheres
quero agora te mostrar
o que tão longamente em mim se acumulou
quero agora tirar os sapatos e o cansaço
de te contar vitórias inventadas
de inventar histórias necessárias
a insegurança toda fantasiada
as emoções fugindo de medo
a verdade posta assim fora do alcance
eu quero te mostrar
o que tão de repente em mim perdeu o sentido
mostrar as minhas marcas de nascença
te levar pra casa da minha mãe
descer as escadas, te contar
os quartos que eu tive, os cachorros que eu tive
eu quero te mostrar meu mal e o meu veneno
ranhuras escondidas, encontros furtivos
as saídas, os cinemas ordinários
como sonhei nas noites e quantas febres
quantos desejos na ponta dos meus dedos
quanta ameaça de pecado e quanto medo
eu quero te mostrar que eu nem mesmo sou bonita
olhada assim de perto às vezes
e tenho momentos de um ridículo irremediável
e uma série de pequenas vergonhas
Você há de notar logo o quanto eu preciso
que voce goste de mim
o quanto eu me desfaço e arrebento
e o quanto eu tento voltar sempre inteira
você há de perceber que eu sou de uma fragilidade
meio assim asa de passarinho
de pardal comum, e muitas vezes
não tem brilho nenhum a minha intimidade
você vai reparar minha impotência
diante de quase tudo e o medo que eu tenho
que você não goste de mim
que você saia primeiro
e me deixe sozinha
atrás desse cenário mal feito
desse teatro vagabundo
que tá ameaçando cair”
(Gaia, pág 13 )
(Com o marido, Ricelli)
Bruna foi muito amiga dos poetas Ana Cristina César e Caio Fernando Abreu, ambos a incentivaram a não desistir da poesia apesar das críticas que recebeu. Entre outros admiradores dos livros de Bruna constam Ferreira Gullar e Mário Quintana. Nos anos 2000 o poema “Alta Tensão” do último livro de Bruna, “O Perigo do Dragão” passou a ser atribuído à autoria de Clarice Lispector, sendo incluído até em redes sociais sobre a escritora:
“eu gosto dos venenos mais lentos
dos cafés mais amargos
das bebidas mais fortes
e tenho
apetites vorazes
uns rapazes
que vejo passar
eu sonho
os delírios mais soltos
os gestos mais loucos
e sinto
uns desejos vulgares
navegar por uns mares
de lá
você pode me empurrar pro precipício
não me importo com isso,
eu adoro voar.”
(O perigo do Dragão, pág 40)
Dos livros de poesia que Bruna escreveu, “O perigo do dragão” é o mais vendido até hoje, lançado pela editora Record, chegou à 7ª edição.
À pedido de Caio F. Abreu, Bruna lançou o “Diário do Grande Sertão”, onde relata em prosa e versos os bastidores da minissérie “Grande Sertão Veredas” da Rede Globo, onde foi a protagonista Diadorim:
“27 de abril
Afiada pro trajeto recolho quietamente coisas.
Uma lua. Um rio que corre dentro. Uma luz
A cada dia uma façanha complicada. A excitação de uma aventura.”
(Diário do Grande Sertão, pág 14)
E por fim, lançou o romance “Filmes Proibidos” que narra a trajetória de uma mulher de 30 e poucos anos que se entrega à uma paixão avassaladora, perdendo o controle de sua vida em nome do amor. Sob à orientação de Rubem Fonseca, o livro foi lançado pela Cia das Letras. Logo na abertura do livro, Bruna avisa dos perigos que a paixão nos oferece:
“Você percebe um ponto interno de corrupção. Um sinal vermelho.
"Não avançar" diz o aviso. É melhor cair fora e você sabe disso. É o
momento certo de dizer não. Virar as costas e dizer não.
Você detecta sua fonte de atração pelo proibido. E vai, está indo, está
desobedecendo seu bom senso e se deixando levar. Maldita curiosidade!
"E por que não fazer a escolha errada?" pergunto à mim mesma.
"Você é uma idiota. Completamente louca e idiota" me respondo.
Deve constar na minha ficha técnica: pessoa obsessiva
Você não se importa. A lâmpada acende, pisca. Soa o alarme. Você
ouve a sirene,sabe que ultrapassar significa perigo, que é um território minado.
Mas você deixa detonar.”
(Filmes Proibidos, pág 9)
Infelizmente os livros de Bruna, atualmente, só podem ser encontrados em sebos. Bruna desistira da literatura para dedicar-se à roteiros de cinema. Mas deixou uma obra dedicada à falar da mulher e suas paixões, e como ela mesma diz: “eu queria que meu drama refletisse o de todas as mulheres que se escondem quietas atrás das janelas dos apartamentos”.
Para quem quiser ler mais das obras de Bruna, podem acessar o site Brunísssima:
http://www.brunalombardi.com/

