Martha Medeiros é dessas mulheres que vai direto ao ponto. Que fala o que pensa sobre qualquer assunto sem rodeios. Não há entremeios em sua literatura. Todo e qualquer assunto é tratado com uma naturalidade que só as amigas íntimas conseguem expressar.Dos poemas que a fizeram conhecida em Porto Alegre às crônicas que a tornaram famosa no país todo, Martha expõe idéias e sentimentos com uma linguagem envolvente que às vezes de tão simples, chega a ser arcaica.
Ao tocar no tema separação; podemos comparar dois momentos. O primeiro no livro de poesias “De Cara Lavada” de 1995:
“177
hoje me desfiz dos meus bens
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos
o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos
a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos
a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos
aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos
coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos”
.
E o outro, no romance “Fora de mim” de 2010 (Ed. Objetiva). Vamos mesmo curar a dor, Martha? Poucas coisas nos fazem tão apegados quanto uma dor de amor, guardamos ela no armário até que fique fora de moda, e depois, empoeirada, ficamos admirados: “Como pude vestir isso um dia?”

Neste livro recente, Martha discorre três momentos da vida de uma mulher abandonada: os primeiros dias após a separação; aquela fase quando, passado o desespero, conseguimos enxergar com racionalidade o que houve e três anos depois, onde, chega a uma fatal conclusão.
O primeiro capítulo é o mais denso, difícil de ser lido por quem passou por algo semelhante, são as horas e os dias onde só se consegue chorar e desejar a morte, sua ou do ex-companheiro, a dor pura e simples, Martha põe o dedo certeiro em nossa ferida :
“ (...) o insuportável é uma medida que nunca tem limite, eu chorei no domingo, na segunda, na terça, em várias partes do dia e da noite, um choro de quem pede clemência, de quem está sendo confrontado com a morte, eu estava abandonando uma vida que não teria mais (...)” Pág 19
“Às vezes dura dez minutos, às vezes um pouco mais. Quando dura 15, é carnaval. Fico 15 minutos trabalhando, concentrada, focada em algum assunto que não é você, e eu tenho a impressão que o processo de cura começou, mas os dias possuem bem mais que 15 minutos, e em todo resto de tempo é em você que penso, e eu me flagro incrédula, mortificada: faz de conta que não aconteceu (...)” Pág 39

O segundo capítulo é tomado por uma racionalidade estranha, nossa heroína revê todo relacionamento com distanciamento crítico, e enxerga os sinais de desgaste - invisíveis na época da paixão:
“Se eu fizesse uma pesquisa, duvido que encontrasse alguma cristã que me dissesse que sim, já teve um homem egocêntrico surgido do nada oferecendo um amor transbordante, um homem com uma conversa sem pé nem cabeça, mas deixando transparecer em cada palavra que está disposto a morrer para tê-la(...)” Págs 60 – 61
“Lembro que brincava dizendo que você teria feito uma carreira gloriosa no DOI-CODI se tivesse sido adulto no tempo da ditadura e tentado a vida como torturador, porque era assim que eu me sentia, sendo torturada com uma crueldade que, admito, no começo era muito pueril, muito discreta, e suportável, já que depois eu era recompensada por beijos mais que escandalosos e por tanto amor e dedicação que seria impossível pensar em fugir daquele cárcere” Pág 71.
Tantas voltas no entorno daquele homem importante, a ponto de tornar-se amiga da sua nova esposa, tudo em busca de uma cura, uma resposta, para no fim descobrir que tal cura não há. O que há é a força de vontade de “só por hoje não pensar nele” e de saber que todo amor traz consigo sofrimento e a razão foi barrada no baile:
“Não tenho mais forças para lutar contra o que se declara gigantesco em qualquer ser humano: a pulsão da entrega. Não será um relacionamento leve, um passeio, nenhuma relação é. Mas, com sorte, talvez eu consiga aceitar que no amor não existe moral da história, enfim.” Pág 131.

Martha acerta em cheio nos corações de todos que conheceram a paixão e seus desdobramentos fatídicos, quem ama está sempre fora de si, está sempre fora de órbita. E fim.
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Texto:Hudson Pereira
Fotos: Google